Sob as luzes da cidade
Como a diversidade molda a arte contemporânea combinando
gêneros, técnicas e estilos das mais variadas expressões,
obviamente, o mesmo fenômeno se verifica no trabalho dos artistas.
A mostra de Gregório Gruber, na Galeria São Paulo,
demonstra a liberdade do autor em expor-se, exibindo a busca, tateando
a representação dos seus inúmeros olhares sobre
o mobiliário arquitetônico, exterior e interior. O
vocabulário plástico do autor pauta-se em volumes
e cores sobre a paisagem urbana de São Paulo, Barcelona,
Roma, que se desdobram em variáveis óticas, transformadoras
e enriquecedoras de 12 pinturas com apreciáveis proporções.
Os apontamentos gráficos, registros fotográficos e
de memória, transportados às telas, com técnicas
diferenciadas, criam estilos, ora tendentes à simples figuração
da paisagem, ora com características construtivas. As formas
da arquitetura dos exteriores resgatam as origens geométricas,
fruto sem dúvida, do olhar distanciado do artista sobre o
mobiliário, como no caso da tela Major Sertório, 1992.
As vistas do Pacaembu, 1993, e Barcelona, 1989, montadas com discreta
plasticidade matérica alcançam pujança cromática
de mãos de mestre, através do jogo das transparências,
das luzes.
As pinturas e os nove pastéis vibrantemente coloridos, pastados
com nervosa e impulsiva gestualidade pictórica, ressaltam
o perfil de uma obra romântica que faz bem à alma,
aos olhos e principalmente à própria arte brasileira,
tão carente de objetivos sinceros e de firmeza profissional.
Gregório faz, também, uma devassa nos próprios
recursos potenciais, realizando projetos escultóricos, do
figurativo real, bem ao gosto dos ingleses, caso da Figura feminina,
1992, ao abstrato-geométrico, Nascente, 1992. O experimento
Barcelona, 1991, em vidrotil, busca, sobretudo no material, a capacidade
da representação da luminosidade das cores a serviço
da composição plástica. Esse universo variado,
baseado nos fazeres artísticos multidisciplinares, revela
a postura descontraída do artista, refletindo o seu tempo,
em busca de outras formas de expressão. Trata-se de um artista
que acredita na arte que faz.
RADHA ABRAMO
Revista ISTO É, 11/08/93