Gregório, O romântico
Sua arte hiper-realista e lírica descreve São
Paulo à noite
A partir de 19 de maio, na sucursal carioca da Montesanti Galeria
acha-se a exposição do escultor e gravador Gregório
Gruber. Nessa individual o artista mostra paisagens urbanas da São
Paulo noturna e retratos contemporâneos de grandes artistas
como Sônia Braga, Elis Regina, Bruna Lombardi, Ney Matogrosso
e Billie Holliday.
Foi em 1971 que Gregório iniciou sua carreira artística
no Salão de Arte Moderna de São Paulo. A arte de Gregório
aparentemente é classificação como sendo hiper-realista.
Só aparentemente, porque atrás da frieza das telas
em grande formato, o hiper se amolda pela poesia urbana, a São
Paulo da garoa e dos arranha-céus à noite, São
Paulo solitária, esconde-se na poesia, no lirismo que evoca
a cidade parada - mas que não pode parar - nas noites frias
de solidão. A técnica perfeita, quase fotográfica,
com que é feita sua pintura, não deixa de ser envolvida
pelos mistérios da noite, tampouco pela realidade imediata.
São Paulo noturna é vista como uma cidade fantasmagórica,
onde a névoa e a bruma lhe dão caráter de passado
e solidão. Certamente ele aprendeu o ofício com seu
pai, Mário Gruber, embora seus estilos sejam completamente
diferentes. O tempo entre Mário e Gruber fluiu, São
Paulo passou a ser centro da pintura no país, cresceu, encheu-se
de arranha-céus e de multidões. O homem se tornou
insignificante em face da desproporção da cidade.
Feita em escala sobre-humana, a capital paulista transformou-se
em megalópole. Com isso o paulista foi esmagado e desumanizado,
tornou-se um ser que passou a existir, como todos os seus seres,
preso no seu anonimato. É isso que Gregório quis exatamente
expressar como conteúdo emocional de suas pinturas. Nessa
visão original de São Paulo, Gregório tem como
companheiros João Calixto e Sedim. Os três são
hiper-realistas, amam a São Paulo da Garoa de Mário
de Andrade. Mais que sua reprodução fotográfica,
eles expressam a alma silenciosa das ruas, parques, avenidas e casarios
na noite da capital paulista.
Mas Gregório é diferente: envolve a paisagem urbana
em uma bruma, o que a torna triste e fantástica. Ele não
pensa nos dias luminosos, no torvelinho das multidões, na
cidade dos negócios e sim que no local em que predomina o
pragmatismo da vida ainda cabe o calor dos pares que se encontram,
dos dois seres que se escondem no semi-escuro das madrugadas. Isso
porque o que interessa a Gregório é justamente o frio
das madrugadas paulistas. Por isso eles se aquecem um no outro,
se abraçam vestindo longos capotes. Há ainda outra
faceta na exposição da Montesanti e na própria
pintura de Gregório: a dos retratos e influências das
artes passadas. Os retratos, como o de Sônia Braga, reúnem
a interpretação fiel da artista, com as transformações
necessárias a dar-lhe uma personalidade. É a Sônia
Braga com alma, alegria, quase expressionista. Nos quadros de influência
impressionista, como na Mulher do Sofá de Manet,
a figura foi transcrita com perfeita exatidão. Mas, para
dar-lhe vida, ele traçou um reticulado horizontal.
Flávio de Aquíno
Revista Fatos, 26/05/86